Hoje eu tava no banco da praça, tava tudo bonitinho, os pombos e as pipocas, os filhos e as mães, a menina e seu menino, o sorvete e o calor, a noite com a lua amarelinha, e eu continuei sentado porque eu era ímpar, assim, eu até tinha meu fone e o meu sambinha, mas essas coisas são coisas apenas. Mas aí eu comecei a lembrar, de quando eu acordava cedinho, e ficava olhando a menina que dormia comigo todo dia, ela tinha os olhinhos tão bonitos, e eu passava a mão em seus cabelos e fazia carinho, eu era par, eu me sentia gente, eu sabia sambar porque eu tinha alguém que me ensinou, eu sabia que era só aquilo que eu precisava, e eu dizia pr'aquela menina, que era só ela, que o samba era feito por mim e por ela, ela aceitava a minha teoria. Me atrevia com aquele corpo de menina quase mulher, falava baixinho no ouvido dela ''Fica comigo, me leva embora com você...'' ela encostava a orelha fria no ombro e sorria, eu nunca fui de querer muito, então só com ela bastava. A mãe tava segurando o filhinho dela, acho que ele ta aprendendo a andar, ainda tá meio bambo o andar dele, mas ele não parava de sorrir, eu sempre tive vontade de ter um filho eu dizia pra menina que teríamos dois, ela gosta de Olivia e eu de Raul, mas era nossos sonhos, sonhos de jovens são assim, bonitos.
Eu ainda penso na menina, acho que a gente ainda se vê novamente, de domingo, porque a semana tira o folego da gente, e o tempo passa num estalo, acho que sou um ímpar até meio par, olha o quanto de lembrança eu tenho, cabe uma casa, uma vida, mas é uma saudade.
Fiquei só mais uns minutos naquele banco, eu senti que o ar da cidade aquele dia, anunciava alguma coisa, eu sabia que sim, e sabia que tinha a menina no meio, e mesmo se não tivesse ela, eu iria atrás, ficar sozinho na praça é coisa de solitário, e eu não sou assim, eu sou um ímpar-par, levantei e fui por aí, o movimento das coisas sempre querem nos mostrar alguma coisa, mas tá tudo escondidinho pra ser achado e só acha quem procura.
-Euzim e sua mania de só falar de um alguém só